Penhora de bens de consulado estrangeiro
OSCAR
PILAGALLO
DA REPORTAGEM
LOCAL
A justiça
do Trabalho de São Paulo autorizou o arrombamento do Consulado da Rússia,
caso o uso da força seja necessário para remover bens a serem penhorados
para garantir o pagamento de uma dívida trabalhista.
A decisão,
em primeira instância, é da juíza Claudete Terezinha Tafuri Queiroz, da
47a. Vara do Trabalho de São Paulo. A ação está prevista para ser executada
hoje de manhã, mas há dúvidas de que o oficial de justiça recorra ao uso
da força policial.
Em maio,
um mandado com o mesmo teor acabou não sendo cumprido diante da alegação
do então cônsul-geral, Vladimir Avrorski, de que os bens do consulado
estão protegidos por imunidade diplomática.
A legislação
internacional, regulada pela Convenção de Viena, de 1963, prevê a "inviolabiüdade
dos locais consulares". Mas é vaga quanto aos procedimentos em casos de
litígios que se tornam objeto de decisão da justiça.
Consulados,
embaixadas e outras representações diplomáticas eram consideradas enclaves
de nações estrangeiras. Embora a interpretação moderna não seja mais essa,
o corpo diplomático ainda tem imunidade total no exercício de suas atividades
consideradas típicas.
No caso de
atividades administrativas, no entanto, a imunidade não é considerada
completa.
Caso antigo
O processo
em questão se arrasta desde novembro de 1989, quando o consulado ainda
representava a União Soviética. A ação, por falta de pagamento, foi movida
pelo funcionário José Paulo Pereira, que hoje reivindica o pagamento de
um valor atualizado de R$ 636,8 mil, quase tudo referente ao FGTS (Fundo
de Garantia do Tempo de Serviço).
Pereira,
que prestava vários serviços no consulado, inclusivo como mecânico e motorista,
foi demitido sem justa causa em 1994, cinco anos depois de ter entrado
na justiça. Ele trabalhava no consulado desde 1976.
De acordo
com o processo, o consulado tem insistido na tese de imunidade de jurisdição.
Ou seja, o governo russo não teria de pagar seus funcionários de acordo
com a legislação brasileira. O argumento não foi acatado pela Justiça
nas diversas vezes em que o caso foi julgado desde então.
Paulo Luciano
de Andrade Minto, advogado de Pereira, diz acreditar que desta vez a ordem
de penhora será cumprida. Para tanto contratou os serviços da transportadora
Giulian, que hoje deverá enviar um caminhão para o consulado, na região
dos Jardins, em São Paulo, para transportar os bens a serem apreendidos.
Ele disse contar com o apoio de dois policiais militares para o eventual
arrombamento.
A Folha não
conseguiu contatar o Consulado da Rússia ontem à tarde. Na Embaixada da
Rússia, em Brasília, o caso não é considerado político. O Itamaraty informa
que não comenta casos que estão na Justiça.
(Folha
de São Paulo, 15.09.00)
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